sexta-feira, 8 de abril de 2011

ENTREVISTA DE JUDITE DE SOUSA À REVISTA NOTÍCIAS TV

     
     Mais de três décadas depois de ter entrado na RTP, Judite Sousa aceitou o apelo do mercado. Na TVI há três semanas, sente-se "livre". Diz que não se vai travestir, e que vai ser ela própria. Acredita que é possível fazer informação credível numa estação mais popular. Revela-se triste com a falta de carinho que sentiu na RTP, mas garante que não era mal paga. Não esconde, porém, que foi ganhar mais para Queluz de Baixo, embora não tenha sido por isso que mudou de camisola.

NTV - Esteve 32 anos na RTP. Sabia o que iria encontrar na TVI?
JS - Quando tomei a decisão de mudar, estava mais ou menos consciente do que iria encontrar. Em primeiro lugar, uma empresa privada com normas de funcionamento muito diferentes das que eu estava habituada, com pessoas que, na maior parte dos casos, eu não conhecia. A mudança significava um admirável mundo novo. Estes primeiros dias estão a ser vividos com muito entusiasmo, com muita curiosidade, humildade, com vontade de produzir trabalho em antena, que acrescente ao que a TVI já fazia. Estou a começar uma nova vida.

NTV - Não vou perguntar-lhe se foi bem recebida, já sei que vai dizer-me que sim...
JS - (risos) Aparentemente fui...

NTV - Não, a minha pergunta é outra: acha que pela cabeça dos profissionais da TVI passou uma ideia do tipo: "Olhem, lá vêm estes dois achar que nos vêm ensinar alguma coisa..."
JS - (pausa) Admito que uma ou outra pessoa possam pensar isso. Ninguém verbalizou isso. Mas acho que isso é um bocadinho humano. Ainda por cima porque a nossa contratação foi completamente surpreendente, não deu tempo às pessoas para se habituarem à ideia. Foi tudo resolvido e anunciado em 24 horas.

NTV - O que é a administração da TVI vos pediu?
JS - Reforço e notoriedade.

NTV - Reforço também na TVI24?
JS - Sim, nós temos também a direcção da TVI24. O que nos pediram é que reforçássemos a marca informativa da TVI e que criássemos as condições para que a informação da TVI pudesse almejar uma posição de liderança, acompanhando a prestação da estação noutras áreas. E foi para isso que nos contrataram. A nós, à nossa experiência e à nossa notoriedade, que decorre do peso que os nossos nomes têm no mercado.

NTV - Não tem qualquer prurido em assumir isso...
JS - Não, nenhum. Eu sei que o meu nome conta. Também mau era que ao fim de 32 anos de carreira, e actuando em todas as disciplinas jornalísticas, não tivesse a noção do que valho ou do que representa o meu nome.

NTV - Tem noção de que a entrevista de Teixeira dos Santos na semana passada ou as que os quatro banqueiros nacionais lhe deram esta semana foram dadas a si e não à TVI.
JS - Tenho, claro que tenho. Isso corresponde à verdade, até porque alguns deles fizeram questão de mo dizer pessoalmente (risos).

NTV - Encontrou a redacção da TVI motivada?
JS - Antes da nossa chegada, não faço ideia, não estava lá. Mas senti a generalidade das pessoas motivadas com a nossa chegada. Mas antes disso não sei. Nunca tinha entrado na TVI. Não sabia onde era Queluz de Baixo...

NTV - E o que é que encontrou?
JS - Encontrei uma empresa muito bem organizada no que diz respeito ao funcionamento e articulação das suas direcções, muito focada nos resultados, muito ágil e funcional, com uma grande proximidade entre as pessoas. Encontrei uma redacção em duplex maior do que a da RTP na Marechal Gomes da Costa, coisa que não imaginava, porque sempre ouvi dizer, nos últimos anos, que as instalações da RTP eram as melhores do País. E a verdade é que são excelentes, mas em termos de espaço isso não acontece. Encontrei uma estação equipada com as mais modernas tecnologias, coisa que também desconhecia. Ficámos muito admirados, muito mesmo, com equipamentos tecnológicos superiores ao que a RTP tem neste momento. Encontrei uma redacção jovem, muito jovem, com uma média de idades que não sei se chegará aos 30 anos. E encontrei uma administração muito simpática, muito cordial, muito afectiva, muito próxima das pessoas.

NTV - Muito diferente do que tinha na RTP?
JS - Sim, objectivamente. Mas também não vale a pena dramatizar. Na TVI trabalham cerca de 500 pessoas e na RTP mais de duas mil. Mas é um facto que esta administração da TVI conhece as pessoas pelos nomes e tem as portas abertas, fazendo questão de dizer às pessoas que tem as portas abertas. É uma administração que às oito e meia, nove da manhã já lá está.

NTV - Sinto que está a dar grande ênfase a essa resposta...
JS - ... sim, estou.

NTV - O que legitima a minha pergunta: nada disso acontecia na RTP?
JS - Não, claro que não. Na RTP, as relações entre a administração e os trabalhadores foram sempre de alguma distância, não com esta proximidade.

NTV - Nos 32 anos que passou na RTP isso foi sempre assim, ou sente hoje uma maior distância?
JS - Não, não, não. Foi sempre assim, temos de perceber a dinâmica das empresas públicas.

NTV - Antes de sonhar vir para a TVI, o que via na informação do canal?
JS - Tudo. Eu sou daquelas pessoas que vêem tudo. Às oito da noite estou de comando na mão à frente da televisão a fazer zapping. Sempre vi tudo, continuo a ver tudo. É o que faz sentido na nossa profissão.

NTV - Há alguma evolução na informação da TVI que se faz hoje, mesmo ainda sem o vosso contributo, e a que a estação apresentava há dois anos?
JS - (pausa) Acho que houve uma grande evolução. Acho que o Júlio Magalhães introduziu alterações profundas na informação da TVI. Desde logo com a contratação de Marcelo Rebelo de Sousa, que, queiramos ou não, é o mais importante analista político português. E um jornal que conta com a presença de Marcelo é um jornal que faz a diferença.

NTV - Mas isso é só ao domingo. Falava-lhe da evolução do conceito, no alinhamento dos seus telejornais.
JS - Sim, é óbvio que o Júlio introduziu grandes alterações no alinhamento, no posicionamento da informação da TVI. E creio que o mercado e a empresa reconhecem isso ao Júlio Magalhães e estão-lhe gratos por isso.

NTV - A saída da TVI de José Eduardo Moniz e de Manuela Moura Guedes não fez mal à TVI?
JS - (pausa) Mal em que sentido?

NTV - A TVI não sentiu a sua falta?
JS - (pausa) Não sei, não sei responder a essa pergunta. O que está a perguntar-me é se a saída daquelas duas pessoas teve ou não impacto nas que lá ficaram. E isso não sei responder. Só posso falar em termos de conteúdos.

NTV - E em termos de conteúdos?
JS - A minha concepção de informação não está próxima da concepção de informação da Manuela Moura Guedes dos últimos anos.

NTV - A Manuela Moura Guedes que conheceu, com quem trabalhou no "Telejornal" da RTP e de quem foi amiga era diferente? Há duas Manuelas Moura Guedes?
JS - (pausa) Se calhar há. É verdade que a Manuela que eu conheci na RTP já valorizava muito a investigação e os temas sociais e políticos, mas parece evidente aos olhos de toda a gente que a informação da TVI durante vários anos, nomeadamente a protagonizada por ela, teve um rumo algo diferente.

NTV - Que imagem de marca é que a nova direcção de Informação da TVI quer imprimir na estação?
JS - Aquela que corresponde à nossa imagem de marca. Percebe? Não me vou travestir não vou deixar de ser aquilo que sou profissionalmente.

NTV - É conciliável na mesma estação ter uma informação da classe A/B onde, durante quatro dias consecutivos, se entrevistam banqueiros e ter três novelas consecutivas logo a seguir ao Jornal? O público é o mesmo?
JS - Vou responder-lhe com um exemplo: no ano de 2010 na RTP, o público que via a Judite Sousa às quintas-feiras entrevistar banqueiros era o mesmo que via à segunda-feira a Judite Sousa de rabo-de-cavalo a fazer programas de reportagem.

NTV - Mas esse é também o seu público...
JS - Não é o meu público, é o público. Essa visão não corresponde à realidade. Na mesma estação, qualquer que ela seja, é possível fazer entrevistas a banqueiros, a ministros das Finanças e simultaneamente fazer reportagens no bairro de Chelas e andar na zona da Ribeira ao lado de heroinómanos. É possível fazer as duas coisas. Eu fiz as duas coisas na RTP em 2010. E não tive problemas com isso. Não afastei públicos. Antes pelo contrário, conquistei públicos.

NTV - Portanto, acha que na TVI é possível juntar também as várias sensibilidades...
JS - Claro que sim, sobretudo num espaço informativo que começa às 20.00 e acaba às 21.30. Em uma hora e meia de informação cabe muita coisa. Falou há pouco da classe A/B. Eu não sei, muito francamente, o que é isso de informação dita séria. Para mim tanto é sério e credível entrevistar Ricardo Salgado, presidente do BES, como fazer uma reportagem com uma senhora que aos 38 anos ficou com Alzheimer e tem três filhos adolescentes para criar. Portanto, acho que a informação não tem de ter um público-alvo específico. Não vale a pena catalogar as pessoas. É possível casar os vários tipos de conteúdos. Porque é atrás da qualidade dos conteúdos que as pessoas vão.

NTV - Nestas semanas em que está na TVI, já se cruzou com Miguel Paes do Amaral?
JS - (sorriso) Não. Eu, pelo menos, não.

NTV - É que o mundo dá muitas voltas. Há dez anos, quando ele era presidente da TVI, disse-me numa entrevista que a TVI tinha de fazer informação para as donas de casa activas, porque era esse o perfil de uma estação que apostava nas novelas como a TVI fazia. Ora, Paes do Amaral já saiu, já foi rei do mercado editorial, e já voltou de novo, como presidente, embora não executivo, da empresa. Ora, parece-me que a Judite e o José Alberto não fazem informação para as donas de casa activas...
JS - (risos) Isso é um preconceito seu, Nuno, desculpe que lhe diga. As pessoas procuram ver o que lhes interessa. É possível casar os vários tipos de conteúdos. Acho que está a catalogar-me de uma forma errada. Eu sou capaz de trabalhar para vários públicos, já o provei. Na RTP, na "Grande Entrevista", tanto entrevistei primeiros-ministros e banqueiros como entrevistei a Simone, o António Feio ou o Tony Carreira. A credibilidade não está na natureza dos assuntos, está na forma como os tratamos. Podemos tratar os assuntos mais popularuchos com classe, com nível, com objectividade.

NTV - Vai ter um programa de entrevistas na TVI como tinha na RTP?
JS - Não. É a primeira vez que falo disto. Não vou ter. Numa televisão comercial não faz sentido. Mas, se me pergunta se vou fazer entrevistas, digo-lhe que sim. Vou continuar a fazer entrevistas. Vão ser integradas no "Jornal Nacional". Talvez não sejam entrevistas de 30 minutos como na RTP, mas é possível fazer entrevistas de 15 minutos, de 10 minutos, de 7 minutos.

NTV - Muito bem. Nestes 18 anos de televisão privada, a Judite já tinha sido convidada ou sondada outras vezes. Porque é que resistiu sempre e desta vez decidiu mudar? Cansou-se de que não lhe dessem valor na RTP?
JS - Sim, cansei-me. Sinto muito isso.

NTV - Porquê?
JS - Não sei (risos). Sinto porque sinto. Há coisas que não se explicam. Acho que uma pessoa que está há 32 anos numa empresa em dada altura começa a ser vista como uma peça de mobília. E dei por mim a pensar nisso, que sou muito nova para ser peça de mobília. Aquelas cómodas antigas que temos na sala, sabe? Gostamos muito daquela cómoda antiga, ela tem um grande valor afectivo e sentimental, mas pronto, está ali.

NTV - Sentia-se uma peça de mobiliário na RTP?
JS - (pausa) Sim, e cansei-me disso. Vou dar-lhe um exemplo. O António Vitorino deixou de fazer o seu programa ("As Notas Soltas") no dia 1 de Março de 2010. Oito dias depois, coloquei em antena um programa de autor. Fiz 18 reportagens em seis meses. O programa começou e acabou 18 semanas depois e ninguém da administração foi capaz de me dizer qualquer coisa. Nem antes nem durante nem depois. Convenhamos que isto não é muito normal. Ainda por cima quando esse programa foi o programa de informação mais visto em 2010.

NTV - Como interpreta isso? Desinteresse, alheamento, uma forma de gestão que não cuida dos principais activos da empresa?
JS - (longa pausa e sorriso) É a tal cómoda antiga... do século XVI que a gente acha que nunca vai sair do sítio. Até ao dia em que ela decide sair do sítio. Mas, atenção, não foi por isso que saí da RTP. Essa foi apenas uma questão que me deixou triste. Mas o que pesou na minha de decisão de sair foi haver uma empresa como a TVI que, numa altura em que o País está de rastos e as empresas estão a viver momentos dramáticos, fez um convite a uma jornalista com 32 anos de carreira e 50 de idade. Repare, o próprio mercado da comunicação social está anémico. Este convite, nesta altura, valeu muito. E isso pesou muito na minha decisão.

NTV - O sentir-se de novo querida e desejada profissionalmente aos 50 anos?
JS - Pois, foi o ter com este convite obtido um reconhecimento que já não esperava nesta fase da minha vida profissional e pessoal. E valorizei isso. Obviamente que tenho noção do meu trabalho, não sou autista nem tonta, mas não estava à espera.

NTV - Valorizou mais este convite também por causa da falta de reconhecimento interno na RTP...
JS - Não, não se pode falar de falta de reconhecimento interno na RTP. Eu não utilizo essa expressão. Seria tolo dizer isso. Não se pode falar de falta de reconhecimento interno para uma das jornalistas mais bem remuneradas da empresa. Isso seria até uma falta de respeito para todos os meus colegas que ganhavam menos do que eu. O que sinto é que, por mais que fizesse na RTP, nada acontecia, não havia uma palavra, um gesto. É diferente, não é falta reconhecimento interno.

NTV - Acredita que na TVI vai ser diferente?
JS - Acho que sim. Repare: sempre trabalhei numa empresa pública. Uma das coisas que fizeram que viesse foi o meu desejo de trabalhar numa empresa que funcione de acordo com as lógicas de mercado.

NTV - Refere-se também à questão financeira...
JS - Esse é um assunto que, como sabe, não gosto de abordar.

NTV - Eu sei, mas a Judite, como todos os outros funcionários públicos, tinha acabado de sofrer um corte no seu ordenado...
JS - Sim, o que é uma situação sempre complicada. Mas não foi por causa do dinheiro que saí da RTP. Nem pelo corte de 10% no meu ordenado na RTP.

NTV - Mas o que a TVI lhe ofereceu pesou na decisão...
JS - Pesou, não vou ser hipócrita ao ponto de lhe dizer que não pesou. Obviamente que o dinheiro é, em si mesmo, uma expressão de reconhecimento. E uma manifestação de mercado e de valor. A remuneração que auferimos reflecte à partida o valor que o mercado nos reconhece.

ÑTV - E nesse aspecto a RTP não podia acompanhar...
JS - Como qualquer empresa pública, de resto, que tem as suas limitações.

NTV - Faço-lhe a pergunta de outra forma: o mercado diz-lhe que o seu valor é superior ao que ganhava na RTP?
JS - (sorriso) Naturalmente.

NTV - Então sentia-se mal paga na RTP?
JS - Não, não posso dizer isso. Seria profundamente injusto dizê-lo. Na situação em que o País está, e olhando para outras profissões igualmente exigentes como a nossa, há um mínimo de pudor. Há que ter noção das coisas e perceber que os ordenados de algumas profissões são muito relevantes. Mas, já agora que fala disso, posso dizer-lhe que uma das razões que contribuíram para eu mudar foi ter-me cansado de ver a minha situação remuneratória escrutinada pela opinião pública. Fartei-me. Está a perceber?

NTV - Foi um grito de revolta, portanto...
JS - (suspiro) Sinto-me mais livre, ninguém sabe quanto ganho na TVI. Nem tem nada que saber. Por que razão é que há-de haver meia dúzia de pessoas a dissertarem na blogosfera sobre os ordenados dos jornalistas da RTP? Os jornalistas da RTP merecem ganhar todos os cêntimos que ganham, porque são excelentes. E é bom que a sociedade portuguesa perceba isso. É bom que as pessoas percebam que não é por se trabalhar numa empresa pública que a vida das pessoas tem de ser devassada.

NTV - Nestas três semanas de TVI, já se enganou e, ao sair de casa, conduziu até à Marechal Gomes da Costa, sede da RTP?
JS - (gargalhada) Não. Mas já passei lá à porta uma vez.

NTV - E olhou ou desviou o olhar?
JS - Olhei.

NTV - E o que sentiu?
JS - É uma batida cardíaca muito forte, confesso. Foram 32 anos. Foi lá que nasci, foi lá que cresci, foi naquela empresa, no corredor da maquilhagem, que conheci o meu marido.

NTV - E já reparou na ironia, agora é chefe dele?
JS - (gargalhada) Não tinha pensado nisso. Pois ele participa num programa da TVI24 e agora sim sou chefe dele. Isso é muito bom, é muito engraçado (risos).
   
fonte: Notícias TV

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